Preparação para o debate - Parte IV - Soluções



Sobre a aprendizagem auto-regulada e portfólio

Simão, Ana Margarida Veiga. (2005). Reforçar o valor regulador, formativo e formador da avaliação das aprendizagens. Revista de Estudos Curriculares, 3 (2), pp. 265-289

A avaliação formativa acompanha o processo de aprendizagem, deve ser encarada como uma atitude e não um método (Simão, 2005,p.266) e permitir ao professor adequar as tarefas a cada situação específica. Ela própria deve ser uma atividade de aprendizagem, permitindo feeback, transparente e individualizada. Tendo um carácter contínuo, ocorre em diferentes momentos: regulação proactiva - no início de uma tarefa/situação didática; regulação interactiva - ao longo do processo de aprendizagem; regulação retroactiva - após uma sequência de aprendizagem. (Simão). É, por isso, um instrumento de regulação e orientação.

A avaliação formadora promove um maior controlo e responsabilidade por parte do aluno do seu próprio processo de aprendizagem (Simão). Permite ao aprendente compreender os objetivos das atividades e tarefas, detetar e corrigir os seus próprios erros e apropriar-se dos critérios de avaliação quer no processo, quer no resultado.

A aprendizagem auto-regulada torna o indivíduo num participante ativo e autónomo no processo de aprendizagem e acontece através do recurso a estratégias cognitivas, metacognitivas e motivacionais (Simão)

As 3 fases do processo de aprendizagem:

Fase prévia - fase de planificação, quando o estudante decide o que vai fazer numa situação de aprendizagem e como o vai fazer - processo de fixar metas.

Fase de realização - fase de execução, quando o estudante realiza a tarefa e efectua mudanças necessárias à concretização do objetivo. Autocontrolo e auto-observação.

Fase de auto-reflexão - fase de avaliação, quando o estudante analisa a sua atuação de forma a compreender as decisões cognitivas que não terão sido apropriadas e poder corrigir num próximo processo. Auto-juízo e auto-reação.

O principal princípio da regulação contínua da aprendizagem é a de «ensinar os alunos a construírem um modelo pessoal de ação que lhes permita serem cada mais autónomos» (Simão) - uma auto-regulação. Para tal, os professores devem considerar como objetivos prioritários: a comunicação dos objetivos e verificação do que eles representam para os alunos; domínio, dos aprendentes, das operações de antecipação e planificação da ação e apropriação dos critérios e instrumentos de avaliação.

São 3 as peças fundamentais para potenciar a auto-regulação: co-avaliação; avaliação mútua; auto-avaliação.

Co-avaliação: avaliação em conjunto do professor e aluno.

«Os alunos são colocados “em situação de confronto, de troca, de interação, de decisão, que os forcem a explicar, a justificar, a argumentar, expor ideias, dar ou receber informações, tomar decisões, planear ou dividir trabalho, obter recursos” (Perrenoud, 1999)»

Anotaria neste ponto a importância de o ensino da música passar a privilegiar, inclusivé nas aulas de instrumento, os diferentes processos musicais, principalmente os iminentemente criativos, pois é nesses que melhor e mais pertinentes são os pontos de Perrenoud vistos em ação e necessários.

O professor deve estabelecer um diálogo com os alunos: Como é que conseguiste isto? Foi difícil? Como poderás fazer da próxima vez?

Possíveis modalidades de questionamento: interrogação guiada - perguntas encadeadas, integrando a resposta parcial do aluno; interrogação retórica; diálogo - análise de argumentos.

Avaliação mútua: avaliação pelos pares. Incentivar a cooperação, espaço de troca de ideias.

Auto-avaliação «é a atividade de autocontrolo refletido das ações e comportamentos do sujeito que aprende» (Hadji, como cit em Simão). É necessário implicar o estudante em atividades de auto-avaliação ao longo da escolaridade.

Deve auto-avaliar: os resultados atingidos numa determinada tarefa; os seus interesses; a eficácia das estratégias; utilidade e esforço requerido na adoção dessas estratégias; crenças e expectativas sobre a aprendizagem; as suas atribuições sobre o sucesso ou insucesso educativos; as suas ações antes, durante e após o ato de aprender.

Deve ainda: tomar consciência dos seus pontos fortes e fracos na realização das tarefas escolares; avaliar a qualidade do trabalho produzido; rever o trabalho realizado; perceber como pode ultrapassar as suas dificuldades.

Os professores devem servir de modelos, explicando as suas estratégias e maneiras de aprender e de pensar.

Uma adaptação, a um aluno de instrumento que vai executar uma nova peça, de uma pauta/guia de interrogação metacognitiva, para guiar a reflexão e autoavaliação: (a partir do Quadro 3, de Simão, p.276)

Antes de iniciar a leitura/execução/estudo

Penso no objetivo da execução desta peça

Por que vou tocar esta música?

 

Qual é a minha intenção?

Situo-me

Que tipo de música é?

 

Em que data foi composta?

 

Quem é o compositor?

 

Reconheço algum elemento musical?

Faço as primeiras predições

O que me diz o título/nome?

 

Dá-me ideia do tema/conteúdo/espírito/carácter da música?

 

O que penso encontrar?

Recordo o que sei sobre a música

Tenho algum conhecimento sobre a música/os seus elementos que me pode ajudar?

 

Parece fácil? Acredito que posso entender/executar a música?

 

O que necessito de saber?

 

Já ouvi esta música, ou alguma semelhante?

Decido como começo a ler/executar

Como vou ler/estudar a música para conseguir o que pretendo?

 

Penso que vou necessitar de tomar notas, anotar dedilhações, usar metrónomo, gravar-me a tocar, ouvir gravações da música, …? 

Durante o estudo

Verifico se vou bem

Depois de ouvir a música/começar a ler, confirmo as minhas primeiras ideias?

 

Devo reler/estudar alguma parte específica? 

 

Posso explicar/descrever por palavras minhas a música e os elementos que acabei de ler/tocar?

 

Existe nova informação que me faz supor que se vai introduzir um novo conceito? Leva-me a criar novas hipóteses?

 

O que vou compreendendo ajuda-me a conseguir o que pretendo? Responde ao meu objetivo?

 

Tenho de modificar a minha forma de tocar/estudar? Tenho que ser mais/menos lento, estudar cuidadosamente alguma parte específica, tomar mais/menos notas, ouvir mais música, gravar-me mais?

Depois do estudo/execução

Revejo o que fiz e o que consegui atingir

Atingi o objetivo que pretendia?

 

Consegui entender bem a música?

 

Porquê?

 

Se voltasse a estudar/executar a peça faria da mesma forma? Porquê?

 



«A definição clara, quer dos objetivos, quer dos critérios que deve guiar a produção de qualquer tarefa, permitirá levar a cabo uma avaliação que poderá ter uma função formativa.»

Dada a inevitabilidade e necessidade as avaliações, o melhor será organizar as avaliações ao longo do curso de forma a que: os alunos as considerem como uma ocasião para aprender; se evite comparação entre alunos, se acentue a «confrontação do aprendente consigo mesmo para que se maximize a constatação dos avanços».

«Santos (2002) propõe algumas estratégias para desenvolver a avaliação regulada, tais como:

- abordagem positiva do erro (...)

- questionamento, orientando o aprendente para a formulação autónoma de questões (...)

- explicitação/negociação dos critérios de avaliação

- recurso a instrumentos alternativos de avaliação, como o portfolio (...)»

Sobre o portfolio, este favorece a aprendizagem reflexiva e constitui o registo da trajetória de aprendizagem do aluno «como uma espécie de filme onde o processo de aprendizagem fica registado quase que com movimentos, porque sem o compromisso muito formal, poderá, e deverá, se possível, incluir rotas alternativas de reflexão, comentários a partir de situações particulares, todas as que, afinal, são o somatório de experiências e vivências dos indivíduos». «Os conteúdos que se incorporam neste instrumento podem ser determinados pela decisão conjunta entre professor e estudante em função dos objetivos previamente definidos».



(Simão, p.283)


Como refere Fernandes (citado por Simão, p: 281) «os portfolios podem dar origem a uma outra “cultura”, a uma outra ideia de sala de aula, tornando-o num local onde as aprendizagens se vão construindo em conjunto e individualmente ao ritmo de cada um; em que se reflecte e pensa em que se valorizam as experiências, instituições e saberes de cada aluno, em que se acredita que as dificuldades podem ser superadas e em que, essencialmente, se aprende.»

Nota: como poderá ser um portfólio adaptado à aula de instrumento? Numa aula de instrumento que se quer cada vez mais diversificada nos seus processos do fazer musical (executar, compor/improvisar, ouvir).

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