Preparação para o debate - Parte II - argumentação
Qual o objetivo e função da avaliação?
“A avaliação, liberta da tentação objetivista, pode então alimentar um diálogo permanente que permitirá ao aluno-aprendente co-gerir, de facto, as suas aprendizagens, com o professor-facilitador”
Hadji, Charles. (1993). A Avaliação, Regras do Jogo. Das intenções aos instrumentos. Porto Editora
A avaliação deve ser um ato de comunicação, um diálogo e questionamento que pretende a facilitação das aprendizagens. A utilização da nota justifica-se apenas quando esta é capaz de transmitir informação que permita alcançar esse objetivo.
Quais os problemas e entraves da classificação? O que faz a classificação?
Argumentos contra a classificação
1. A “nota” tem um baixo nível de significado, pois tem uma fraca capacidade de comunicação daquilo que realmente foi aprendido.
Reconhecendo a nota e a sua posição imperialista Hadji (1993), destaca a necessidade de criar uma linguagem comum entre locutor e recetor que permita evitar as distorções e limitações da nota numérica e da comprovada ausência de fiabilidade dos procedimentos de classificação.
2. Ausência de fiabilidade dos procedimentos de classificação.
Falácia da objetividade - os diferentes fatores de enviesamento provam que a impressão de exatidão, de “nota verdadeira”, é falsa:
· Subjetividade do avaliador
Nas suas variações de humor, disponibilidade, fadiga, ideologia.
· Origens sociais
«...o juízo do professor pode ser guiado, inconscientemente, por signos sociais. (...) a apreciação (...) é contaminada por preconceitos que têm em conta um “sistema e maneiras características de determinada posição social. O exame também é uma prova de reconhecimento social.»
· Contextos e tradições
«As notas são relativas ao contexto e exprimem tradições ou particularidades locais, características de uma escola ou de uma região, consoante a sua história» (Hadji, p.99)
· Efeito de Âncora/Contraste
«as notas dependem, em parte, do lugar que a produção avaliada ocupa no lote»
· Efeito de Origem
«uma mesma produção é julgada de forma diferente segundo a qualidade atribuída ao produtor» - estatuto escolar. (Hadji, p.100)
· Fenómeno de categorização/esterótipo
O estatudo social do aluno.
· Efeito de Assimilação
«assimilação de uma avaliação àquelas que foram atribuídas, anteriormente, ao mesmo aluno» - desempenhos anteriores
· Efeito de Halo
«influência exercida (...) por índices de ordem “afetiva” (comportamento do candidato) ou formal (apresentação do exercício)...»
· Efeito de Contaminação
«O “efeito de contaminação” ocorre quando, perante uma determinada produção escrita ou até oral, o professor não consegue separar os diferentes critérios utilizados para avaliar os objetivos pretendidos, originando, desta forma, um processo de contaminação. Trata-se, por exemplo, da situação em que certos professores subavaliam a riqueza de conhecimentos devido a uma fraca organização formal de teste, de uma resposta ou de trabalho realizado pelos alunos» (Machado, p.41)
· Lei de Phostumus/ Constante Macabra
«A lei de Phostumus ou a “constante macabra” assentam no princípio de que, em qualquer produção dos alunos e em qualquer nível de ensino, a correção e avaliação deve dar origem a uma distribuição “normal” dos resultados, baseada numa alegada lei de Gauss, segundo a qual deve haver, necessariamente e de forma constante, um número reduzido de alunos excelentes e fracos e um número elevado de alunos de nível médio (é a curva de Gauss). Esta norma externa de notação, (...) condiciona os “arranjos” das classificações dos alunos, tendo por base a norma da turma, em função de expetativas pessoais, profissionais e sociais. Como refere Merle, “a conceção dominante e institucional das práticas de notação torna suspeito, em todo o caso não conforme e anormal, um teste ou uma média trimestral na qual todos os alunos tivessem a nota média” (2018, p. 121).
A “constante macabra” traduz-se, desde logo, na forma como os testes e os exames nacionais são “calibrados” em termos de dificuldades, sendo evidente a preocupação de evitar a todo custo o “facilitismo”, uma aberração face à lei de distribuição normal dos resultados. Neste sentido, e porque um teste ou exame bem elaborados devem conduzir sempre a resultados “negativos”, a construção dos instrumentos de avaliação tende a privilegiar a escolha de questões difíceis, e até com “armadilhas”, que garantam o mínimo normal de total insucesso e o mínimo normal de pleno sucesso. Como refere De Landsheere,
O fim em vista é classificar cada um, atribuir-lhe um lugar que lhe pertence num grupo numeroso. Numa palavra, trata-se de organizar uma espécie de concurso, em que o melhor virá a ocupar necessariamente o primeiro lugar.
É por isso que muitos testes de aptidões ou inventários de conhecimentos são ótimos instrumentos de seleção. (1976, p. 245)» (Machado, p. 41)
A busca pela nota verdadeira mantém-se ilusória enquanto se acreditar poder medir de forma verificável o valor do produto, em vez de tentar comunicar de forma clara o “juízo construído sobre o grau de realização de um projeto preciso”. Assim, Hadji defende a necessidade do sentido de justiça em quem avalia e da pertinência da avaliação enquanto ferramenta deliberadamente informadora, clara nos seus questionamentos, beneficiando o avaliado através da clareza dos critérios, encarando o critério sob a forma de questão, abrindo, desta forma, um diálogo.
3. A tentativa de classificação e comparação levam, perigosamente, a uma maior valorização de fatores técnicos/virtuosísticos/complexidade, por se aparentarem como prestáveis à referenciação de critérios mais fáceis e objetivos, levando a uma desproporção e desequilíbrio do foco do desenvolvimento musical.
4. A classificação insere-se numa lógica normativa, onde os alunos são, inevitavelmente, comparados entre si, levando a uma reprodução do sistema económico e social de competição e hierarquização, uma ilusão de meritocracia e uma falsa sensação de equidade.
«a avaliação é, ao mesmo tempo, o mais poderoso instrumento de equidade e de injustiça, de inclusão e de exclusão, de mobilidade social e de “reprodução" e, enfim, de promoção da “coesão social” ou de acentuação das desigualdades.» (Machado, 2018, p. 35)
Machado, Eusébio André. (2018). A “FABRICAÇÃO” DAS NOTAS ESCOLARES: EQUIDADE, SUCESSO E AVALIAÇÃO. Revista de Estudos Curriculares, vol 9, nº 2
5. A classificação e a avaliação sumativa tornam-se o centro do processo de aprendizagem, desprezando-se os ritmos de cada aluno, intoxicando e criando um efeito de adição e, por outro lado, sendo fator de desmotivação, ou fonte de stress.
6. A classificação é usada como ferramenta de poder, controlo e chantagem por parte do professor, impedindo a criação de uma verdadeira cooperação.
7. A classificação favorece uma relação utilitarista com o saber (ensinar/aprender para a prova/nota).
8. A necessidade de classificar retira espaço a atividades do fazer musical de maior experimentação, com estruturas abertas e primazia da criatividade, pois são mais difíceis de incluir em formas tradicionais de avaliação.
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