Entrada “The Ron Clark Story – O Triunfo de Ron Clark” (algures entre Covid e ano novo)
O que me diz o filme sobre avaliação?
O filme expõe a face mais negativa daquilo que pode ser o processo avaliativo: um momento que ganha de tal forma protagonismo na organização escolar, que retira todo o protagonismo do processo essencial – a aprendizagem, funcionando não como fonte potencial de equidade e justiça social, mas sim como uma forma de perpetuação e reprodução de sistemas socio-económicos hierárquicos e de guetização de comunidades, despedaçando todo o potencial libertador existente num processo de apropriação de conhecimento.
Por outro lado, mostra também que apesar desse “imperialismo” da avaliação sumativa e da classificação, que dominam a gestão escolar e do ensino, há ainda possibilidade de ação verdadeiramente significativa dentro da escola. Não é pelo facto de haver uma peça “podre” que devemos desistir. No fundo, uma palavra de esperança para aqueles que realmente fazem parte da ação educativa, os professores, e que têm a capacidade de ajudar as crianças a alcançar aquele que é seu conhecimento poderoso..
O que me diz o filme sobre “ser professor”?
Apesar de todos os constrangimentos, é o professor e a sua relação diária com os alunos, pais e instituição que concretiza o currículo e, portanto, que assegura o ensino-aprendizagem.
É nessa concretização curricular ao nível micro que o professor deve fazer uso da sua autonomia, do seu profissionalismo, da sua capacidade reflexiva e criadora.
A atenção à realidade de cada aluno - os seus interesses, as suas dificuldades, o seu contexto familiar,... -, um inabalável entusiasmo, uma contínua confiança, um compromisso e cuidados paternais são características, que estando presentes no "professor", o tornam um verdadeiro agente da mudança e abrem caminho para o despertar do potencial de cada criança.
Conhecimento, autonomia, responsabilidade e a perceção de qual o conhecimento poderoso necessário a cada criança. No caso dos alunos de Clark, a auto-confiança, o auto-controlo, o auto-conhecimento e a valorização de si próprio
Por outro lado, a gestão da disciplina pode ser um fator destrutivo, quer da relação, quer da aprendizagem. É necessário que o professor tenha um sentido de justiça bem afinado e um grande conhecimento dos procedimentos psicológicos que envolvem o desenvolvimento, quer cognitivo, quer moral, para ser capaz de usar as diferentes táticas que, por exemplo, Sprinthall propõe na sua perspetiva desenvolvimental. Clark aplica, claramente, algumas delas como:
regras impostas pelo professor, autoridade e vigilância do cumprimento (estádio 1 e 2), apelo à coesão do grupo (família) (estádio 3), contratos individuais, auto-controlo, individualização do ensino, envolvimento parental (estádio 4). Nunca esquecendo a continuidade do reforço positivo, elogio, confiança, atenção.
Que título daria ao filme? Porquê?
'tecendo a liberdade'
Poderia encontrar soluções mais politizadas, como 'para uma revolução social', no entanto, opto por uma mais poética, porque o filme é demonstrativo do poder que um professor tem enquanto construtor, criador de futuros, inspirador de crianças destinadas a uma vida de subjugação. Através da sua arte, de forma exímia e sublime, Ron Clark teceu a possibilidade libertária, uma liberdade individual que mais ninguém vislumbrava.
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