Entrada “Debate” (07/12)
Ao escutar
o 1º debate com a tese “As provas são a melhor forma de avaliação porque é a
mais justa, fiável e eficaz”, ainda que a troca de argumentos fosse, no geral,
interessante e fundamentada, senti uma certa ambiguidade de certos termos base,
que levaram a alguma incoerência, ou, pelo menos, não me deixaram totalmente
confortável. Desde logo, a definição daquilo que é uma ‘prova’, enquanto
momento avaliativo, nem sempre foi clara se seria equivalente a uma
avaliação sumativa, ou poderia ter também um caráter formativo.
Por outro lado, a sua função nem sempre foi óbvia. Houve um grande foco naquilo
que é a ‘prova’ no formato ‘audição’, por exemplo, para uma orquestra. Nesse
caso específico, a função da ‘prova’ é claramente sumativa e
normativa, pela comparação entre os concorrentes, para, no final, ser seletiva.
Aqui invocaram a definição de critérios claros e objetivos, no fundo a criação
de um referencial detalhado, para salvaguardar a justiça e fiabilidade. Este
ponto mereceria uma contra-argumentação baseada na falácia do objetivismo e do
tecnicismo, mas parece-me mais importante desenvolver outro argumento.
Ora, se aceitamos esta função da ‘prova’, mas se nessas mesmas orquestras é
depois implementado, como foi exposto, um ano de experiência ao músico
selecionado, para avaliar efetivamente a sua capacidade para integrar o grupo -
um modelo de avaliação contínua com uma função, portanto, mais
próxima da avaliação formativa -, podemos deduzir que, a ‘prova’,
enquanto função sumativa, não é suficiente, nem pode ser usada por si só, por
isso, não pode ser considerada a melhor forma de avaliar. Pode, no entanto,
para certo tipo de contexto, ser útil.
Por outro
lado, não foram clarificadas, nos dois lados do debate, as diferentes funções
da avaliação naquilo que é o universo musical e todos os seus intervenientes -
por certo, um músico que faz provas para uma orquestra tem objetivos e
características diferentes de alguém que estuda música apenas pelo prazer de
aprofundar o seu conhecimento, ou de aprender um instrumento, sem metas
‘profissionais’, ou um grupo de crianças num primeiro processo de trabalho
musical. Se considerarmos que a avaliação deve estar ao serviço da aprendizagem
do aluno, ou, inclusivé, ser ela própria aprendizagem e tivermos em conta qual
o grande objetivo da educação musical, como potenciadora de experiências
estéticas significativas, então temos que levar em conta cada indivíduo e as
diferentes formas de expressar o domínio de um determinado conhecimento musical
- como nos lembra Keith Swanwick, ao alertar para os diferentes domínios do
fazer musical: ouvir, tocar, compor e improvisar. É possível uma ‘prova’, ou um
conjunto de ‘provas’, mas encaradas como avaliação sumativa, responder a esta
necessidade? Ou terá, inevitavelmente, a 'prova' de ser concebida como
avaliação formativa para, assim, ser verdadeiramente útil?
O argumento
da meritocracia, parece-me, por essa razão, particularmente perigoso. A
necessidade de selecionar é diferente da necessidade de avaliar. Num concurso,
ou prova para orquestra, os intervenientes aceitam as regras do jogo (mesmo que
elas não sejam claras - veja-se a opacidade, ou inexistência dos critérios),
aceitam a função sumativa, a comparação e seleção a que estarão sujeitos. No
ensino da música, a avaliação deve ser parte integrante do processo de
ensino-aprendizagem, auxiliando-o. Se precisarmos de selecionar, comparar ou
destacar o ‘mérito’ de alguém, provavelmente estamos a desviar-nos do objetivo
maior que é o ensino da música. Temos que nos perguntar, então, se a ‘prova’,
ou conjunto de ‘provas’ que vamos idealizar (um debate, uma audição, uma
gravação, um portfólio, etc.) correspondem ao propósito último da educação
musical e têm em consideração a música enquanto forma simbólica, um discurso e
os seus processos metafóricos (Swanwick)
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